Conformada, tropa de choque de Dilma no Senado articula contra-ataque para votação final

Crédito, Agencia Senado
- Author, Ingrid Fagundez
- Role, Da BBC Brasil em São Paulo
- Published
Nas sessões da Comissão Especial do Impeachment do Senado, eles protagonizaram algumas das discussões mais acaloradas. Eram, afinal, a minoria pró-governo: os cinco senadores responsáveis por defender uma presidente com níveis recordes de impopularidade.
Após a aprovação do relatório de Antonio Anastasia (PSDB-MG), favorável ao impeachment, a tropa de choque de Dilma Rousseff na Casa já assume a derrota na votação desta quarta-feira. Eles afirmam que o parecer deve ser aprovado no plenário, onde será necessária a maioria absoluta dos votos (metade dos presentes, no mínimo 41, mais um).
O jogo, dizem, pode virar na votação derradeira do julgamento no Senado, quando a oposição precisará do aval de 54 parlamentares. Até lá, planejam convencer os indecisos apostando nas incertezas da opinião pública, cada dia mais desconfiada de um eventual governo Michel Temer.
A BBC Brasil conversou com alguns dos principais membros da base de apoio do governo, conhecidos por definir o processo como "golpe", para saber como estão agindo na defesa de Dilma em meio ao avanço do impeachment.<link type="page"><caption> </caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/brasil/2016/05/160509_perfil_senado_impeachment_if_rm" platform="highweb"/></link>
- <link type="page"><caption> Leia também: Branco, superior completo e sob investigação: a cara do Senado que votará o impeachment</caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/brasil/2016/05/160509_perfil_senado_impeachment_if_rm" platform="highweb"/></link>
Entre eles, nomes como Gleisi Hoffmann (PT-PR), que chefiou a Casa Civil entre 2011 e 2014 e hoje é investigada pela Lava Jato, Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), procuradora da mulher no Senado e Humberto Costa (PT-PE), líder do governo na Casa.
Outro que se destaca é Lindbergh Farias (PT-RJ), presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes) nos anos 1990, lembrado como líder do movimento caras-pintadas, que tomou as ruas pela saída do presidente Fernando Collor. Ele não atendeu o pedido de entrevista.

Crédito, Agencia Senado
Comissão
Gleisi e Vanessa eram titulares na Comissão Especial de Impeachment, onde negavam que Dilma tivesse cometido crime de responsabilidade e questionavam os argumentos da oposição.
Para elas, os bate-bocas com os colegas eram inevitáveis em um ambiente "de cartas marcadas".
"Na Câmara não teve discussão", diz Gleisi. "Obviamente esse clima contaminou o Senado. Infelizmente, por ter um relator comprometido com o processo de impeachment, do PSDB, a gente não conseguiu reverter muita coisa."
Mais do que os debates com "quem não queria nem ouvir", para os governistas valeu a oportunidade de falar à população - e aos parlamentares que ainda têm dúvidas sobre o mérito do processo.
"Para a opinião pública (a argumentação) é fundamental", diz Vanessa Grazziotin. "Há muita manipulação de informação e (as pessoas) formam juízos de valor baseado em informações equivocadas. O povo acha que ela tem que sair porque a economia vai mal, por causa da corrupção. Mas a corrupção aparece porque ela apura."

Crédito, Agencia Senado
A senadora do PCdoB diz perceber que sua defesa da presidente é desaprovada por segmentos da sociedade, mas acha que isso está mudando.
"No primeiro momento (a ação) é reprovar nossa atitude, mas isso logo vai cair por terra. Porque há uma ilusão de que Dilma é a razão da crise, e que se ela sair a crise vai ser superar."
Além de Graziottin, outros membros do grupo pró-governo acreditam estar em curso uma virada na percepção dos brasileiros sobre o impeachment. Na opinião deles, as pessoas estariam cada vez mais receosas com um eventual governo Temer. O afastamento de Eduardo Cunha da presidência da Câmara seria outro fator dessa transformação.
- <link type="page"><caption> Leia também: Quais são as suspeitas e ameaças que pairam sobre Temer</caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/brasil/2016/05/160509_temer_acusacoes_lab" platform="highweb"/></link>
"Tem pesquisas que mostram que, no Nordeste, 60% são a favor da democracia e 40%, do impeachment", diz o senador Paulo Rocha (PT-PA), um dos responsáveis pela articulação do grupo dentro do plenário. "No sul, seria o contrário, mas esse número está reduzindo dia a dia - hoje são 53%. Significa que há uma mudança mesmo nessa camada, de classe média alta elitista. Quando se processaram as mobilizações, a grande figura era o Cunha e agora perceberam que ele era o grande corrupto do país."

Crédito, Agencia Senado
Pressão
A tropa de choque de Dilma quer aproveitar esse suposto giro da opinião pública para pressionar parlamentares que pensam em mudar de posição. É nesse segmento que o grupo deposita suas fichas.
"Estamos conversando com um conjunto de senadores que têm uma certa consciência democrática do processo que está sendo construído. A percepção maior é do sentimento da população, para que esses senadores possam ter respaldo popular ao votar", diz Rocha.
O trabalho de articulação é dividido em dois. Um parte dos aliados faz o estudo técnico e jurídico do processo, para produzir argumentos, e outra atua nos diálogos com os colegas.
A expectativa da base de Dilma é conseguir 30% dos votos nesta quarta-feira, como forma de sinalizar que a oposição não terá, na segunda etapa, o mínimo de votos para afastar a presidente.
"Estamos mais perto dos 28 votos do que eles dos 54 votos (na fase do julgamento). Muitos estão dizendo que vão votar 'sim' agora para analisar depois", diz Vanessa Grazziotin.
- <link type="page"><caption> Leia também: 'Lava Jato exportação': O que se sabe até agora sobre conexões internacionais do esquema de corrupção</caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/brasil/2016/05/160505_lavajato_exterior_tg" platform="highweb"/></link>
As conversas são diárias, mas os governistas dizem que ainda é difícil saber como está o placar - segundo o jornal Folha de S.Paulo, na noite de terça-feira eram 51 senadores a favor e 21 contra o afastamento da presidente.
Toda a movimentação é acompanhada de perto por Dilma Rousseff. Segundo Gleisi Hoffmann, ela pergunta frequentemente sobre a posição dos parlamentares e acompanhou as sessões da comissão do impeachment.
"Está muito serena, mas muito triste. Ela vai enfrentar até o final."
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estaria ajudando no convencimento dos parlamentares.

Crédito, Agencia Senado
Oposição
Apesar da confiança de que o processo pare na votação derradeira no plenário, eles já falam sobre o tipo de oposição que formariam em um eventual governo Temer.
A senadora Fátima Bezerra (PT-PB) menciona "tempos difíceis" para Temer.
"Não enxergamos nenhuma legitimidade num eventual mandato dele, mesmo que provisório. A julgar pela Ponte Para o Futuro (documento lançado no final do ano passado), significará um duro retrocesso. Temos o dever de fazer uma oposição responsável, mas muito firme. O dever de lutar para impedir a perda de direitos dos trabalhadores. "
O documento, interpretado como uma agenda econômica para o governo Temer, propõe a reforma previdenciária e a revisão de gastos públicos obrigatórios, como os vinculados a educação e saúde.
A resistência, diz a senadora, viria de uma combinação do campo institucional com as ruas, já que não teriam maioria no Congresso.
- <link type="page"><caption> Leia também: Senador autor de PEC ambiental polêmica reconhece benefício a empresa da família</caption><url href="http://www.bbc.com/portuguese/brasil/2016/05/160509_gurgacz_emenda_rs" platform="highweb"/></link>
Paulo Rocha, na frente de articulação do governo, fala em "oposição radical", não só para barrar medidas no Senado, mas também para "retomar a democracia no país".
Como lembra Humberto Costa, Temer no poder levaria a esquerda de volta à oposição: "o que temos grande experiência de fazer".
"Vamos fazer como em outros tempos: procurar fiscalizar, ter uma relação mais próxima com movimentos sociais, com a população. Vamos barrar mesmo."


















