Forças sírias abrem fogo durante funerais e matam pelo menos 12

Bandeira síria coberta de sangue/AP
Legenda da foto, Milhares compareceram aos funerais neste sábado
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Pelo menos 12 pessoas foram mortas neste sábado na Síria quando forças de segurança abriram fogo nos presentes aos funerais de manifestantes mortos no dia anterior, segundo relatos vindos do país.

De acordo com o correspondente da BBC em Beirute (Líbano) Owen Bennett Jones, as dezenas de milhares de pessoas que compareceram aos funerais sofreram violenta repressão por parte das forças de segurança, que usaram munição real.

Segundo testemunhas, os disparos ocorreram na capital, Damasco, além das cidades de Homs, no oeste do país, e em Ezra, no sul. As mortes teriam ocorrido, de acordo com os relatos, em Ezra e nos subúrbios de Douma e Barzeh, na capital.

O repórter da BBC diz que, em Damasco, integrantes das forças de segurança atiraram contra os presentes em um funeral. Em outro, segundo ele, os agentes apenas mandaram as pessoas voltarem para casa.

Bennett Jones afirma que, desde que os protestos começaram, há cinco semanas, o governo tem permitido que as pessoas presentes em funerais se manifestem. No entanto, o repórter diz que, neste sábado, as forças de seguranças aparentemente não estão tolerando sinais de dissidência.

Ele afirma que, tendo em vista a grande quantidade de sírios pedindo o fim do regime, o governo entende que sua sobrevivência está em jogo e luta por ela.

Testemunhos

Um morador de Homs que disse se chamar Mohammed afirmou que a cidade "está vazia, ninguém sai à rua".

"Eles prendem qualquer um que saia de casa e voltaram a atirar para matar", afirmou ele, que disse ainda que as autoridades estão bloqueando o acesso de comida para a cidade de 700 mil pessoas.

Uma moradora de Damasco, que prefere não revelar seu nome, descreveu à BBC como ela e outros foram atacados.

"Foi de perto, cinco ou seis metros. Vi mais de meia de pessoas caindo ao chão. Qualquer um que tentasse ajudar levava tiros."

"Uma pessoa não estava morta e quando tentaram ajudá-lo, um guarda atirou no ferido duas vezes para garantir que ele não escaparia vivo."

Reações

Os protestos dessa sexta-feira foram os mais sangrentos na Síria desde o início das manifestações contra o governo do presidente Bashar Al-Assad, que está no poder há quase 11 anos. Os dissidentes pedem reformas democráticas no país.

Entre 70 e 100 manifestantes foram mortos nessa sexta-feira. Os episódios causaram forte reação, dentro e fora do país.

Reuters
Legenda da foto, Manifestantes carregam bandeira da Síria em Deraa, na sexta-feira

Neste sábado, dois integrantes do Parlamento sírio renunciaram, em protesto pelas mortes. Ambos os parlamentares são da cidade de Deraa, palco de diversas mortes na sexta-feira.

"Após fracassar na tentativa de proteger meus filhos desses tiros, não há sentido em continuar no Parlamento", disse Naser al-Hariri à TV al-Jazeera.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, condenou a violência “nos termos mais fortes possíveis” e acusou a Síria de usar força desproporcional contra os dissidentes, além de buscar ajuda iraniana para conter os protestos.

Neste sábado, o governo sírio chamou a declaração de Obama de "tendenciosa", por não ser "baseada em uma visão objetiva da realidade que está ocorrendo".

Já um porta-voz do Ministério do Exterior iraniano disse à TV Al-Alam que o governo de Teerã rejeita as acusações americanas e afirmou que elas "são originárias da postura política (dos Estados Unidos)".

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu uma investigação independente sobre os atos de violência na Síria e exigiu que o governo de Damasco aceite as manifestações populares de forma democrática.

Segundo o correspondente da BBC em Beirute, o governo sírio não fez comentários sobre os funerais de sábado, mas, em relação aos protestos de sexta-feira, a agência estatal de notícias Sana afirmou que "grupos de criminosos" mataram integrantes do Exército e da polícia.

Estado de emergência

Na semana passada, o presidente sírio decretou o fim do estado de emergência que vigorava no país desde os anos 1960, em um gesto visto por especialistas como uma concessão feita aos manifestantes e à oposição.

No entanto, a correspondente da BBC em Beirute Kim Ghattas afirma que o tamanho dos protestos registrados nas cidades sírias mostra que as concessões feitas por Assad foram consideradas insuficientes e meramente simbólicas.

A persistência das manifestações mostra que o movimento de oposição ao governo somente cresce em tamanho e em confiança, diz a repórter da BBC.