Rio 2016: após 2 anos de luta, comunidade vence batalha contra remoções

Crédito: Gustavo Oliveira
Legenda da foto, SMH: as casa que tinham essa sigla na parede seriam demolidas para a obra olímpica
    • Author, Donna Bowater
    • Role, Do Rio de Janeiro para a BBC News
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Na pequena e humilde comunidade da Vila União, zona oeste do Rio de Janeiro, quase todas as casas têm algo em comum: um "SMH" pintado na parede.

O símbolo é como uma "pichação oficial" que representa as iniciais da Secretaria Municipal de Habitação do Rio – as casas marcadas com a inscrição seriam demolidas por causa de uma obra para os Jogos Olímpicos de 2016.

Seriam quase 900 famílias despejadas por estarem "no caminho" da Transolímpica, o BRT (bus rapid transit) que vai ligar os dois principais locais de competição da Olímpiada (Barra e Deodoro). Boa parte delas vive na "Rua da Esperança" e, para fazer jus ao nome da via, passaram os últimos dois anos lutando para não perderem seus lares por causa da obra olímpica.

A Transolímpica é um dos mais importantes projetos de infraestrutura para os Jogos – são 25 km de via expressa que levarão cerca de 70 mil passageiros por dia da Barra, onde fica o Parque Olímpico, até o Complexo Esportivo de Deodoro da Fonseca, outro local importante de competições.

Em troca pelo despejo, a prefeitura oferecia aos moradores da Vila União ou uma compensação financeira (com o valor avaliado do imóvel) ou então se propunha a realocá-las em pequenos apartamentos.

Crédito: Gustavo Oliveira
Legenda da foto, Moradores se uniram para lutar contra as remoções na comunidade

Mas os moradores não gostaram da ideia de sair da comunidade onde viveram pelos últimos 30 anos e decidiram resistir. Foram dois anos de incertezas e uma campanha modesta, porém barulhenta, de resistência e, agora, eles finalmente conseguiram escapar da demolição.

A solução foi desviar o curso da Transolímpica. Em vez de correr em linha reta pelo bairro, agora o BRT vai contornar a Vila União. A mudança beneficiou mais de 700 famílias – agora, "só" 191 precisarão ser desapropriadas, uma redução de 78% do número original de despejos previstos.

"Estamos comemorando muito, porque eram 900 famílias e agora são 191", disse Robson da Silva Soares, um dos líderes da resistência às desapropriações na Vila União.

Vitória parcial

A vitória, porém, foi doce e, ao mesmo tempo, amarga para os moradores da região que, em 2012, ouviram promessas de que haveria mais investimento para melhorar a estrutura dos bairros mais pobres da cidade até 2020.

Meses depois, o projeto da Transolímpica foi anunciado e, com ele veio a notícia de que centenas de famílias seriam desapropriadas por causa da obra.

Segundo os moradores, muitas das casas marcadas para a demolição eram maiores do que as que eram oferecidas em troca pelo governo.

Crédito: Gustavo Oliveira
Legenda da foto, Cerca de 900 famílias teriam de ser removidas de acordo com o plano inicial do BRT

"Eu moro aqui há 20 anos e se eu precisasse escolher entre morar na Colônia Juliano Moreira (apartamento financiado pelo governo) e ficar aqui, eu com certeza preferiria ficar", disse Francisco Gabriel, de 68 anos. "As casas lá são bem menores."

De acordo com a prefeitura, os planos para a Transolímpica foram redesenhados para reduzir o impacto dela na região.

"Conseguimos obter terras públicas que pertenciam ao governo federal para alterar o projeto e atender às necessidades dos moradores", disse um porta-voz do governo municipal.

Segundo a prefeitura do Rio, apesar de o projeto estar causando "desconforto" para alguns, ele também serviria para melhorar a vida de muitos moradores ao conectar a região a outras linhas do transporte público.

"O corredor que vai ficar pronto aqui vai beneficiar a população e vai deixar um enorme legado de mobilidade: uma linha de transporte totalmente integrada com a Transoeste e a Transcarioca - os BRTs que já foram inaugurados - e o sistema de trens em Deodoro", disse o representante da prefeitura.

Comunidade dividida

A diminuição do número de desapropriações foi comemorada pela maioria dos moradores na Vila União, mas não deixou todos plenamente satisfeitos. A comunidade ficou dividida.

Crédito: Gustavo Oliveira
Legenda da foto, Das 900 famílias que seriam removidas, agora serão apenas 191

Cintia Neves, que tem uma lanchonete na região, morou praticamente a vida toda ali. Ela divide a casa que seu pai construiu quando ela tinha seis meses de vida com a mãe e o irmão.

"A maioria (da comunidade) acredita que a mudança é boa, mas ainda há alguns que gostariam de sair", disse ela, explicando que alguns moradores da comunidade não tinham mais do que casebres, e por isso teriam interesse em mudar para o apartamento do governo.

"Nós vamos ficar por enquanto", disse ela.

As demolições canceladas com certeza foram um alívio para a comunidade, mas a nova rota da Transolímpica ainda preocupa os moradores pelo impacto que terá na região.

O campo de futebol do bairro, por exemplo. O plano original o poupava, mas o novo projeto passa bem em cima dele.

A prefeitura diz que estava negociando com o dono do campo para fazer um novo em outro lugar na comunidade.

Crédito: Gustavo Oliveira
Legenda da foto, Confusão de cabos de energia na comunidade Vila União

Luta

Para os que teriam que sair da Vila União e ir para os apartamentos oferecidos pelo governo, uma das grandes preocupações era justamente perder o "sentimento de comunidade" que eles cultivaram no tempo que viviam ali.

"Eu cresci na comunidade com meus pais e quatro irmãos", disse Robson. "Tem um mercado, um banco, uma escola. Mas o lugar para onde as pessoas estão mudando não tem nada disso. Eles vão ter de começar tudo de novo."

Robson garante que ele e os outros líderes da campanha de resistência não vão desistir: "Minha casa estava no caminho do BRT e agora eu não preciso mais sair."

"Mas mesmo assim, eu vou continuar com a mesma luta, porque independente de mim, nós estamos lutando pelos direitos dos moradores."

E ele está confiante que pode diminuir ainda mais o número de desapropriados na Vila União. "Nós vemos a possibilidade de despejar ainda menos que 191", diz, otimista.